Velho Chico, Patti Smith e Céu
Fabiane Pereira

13.06.2016

Felizes surpresas culturais

Desde muito menina vejo novelas. Quando eu era criança, classificação indicativa era praqueles filmes pornô soft que passavam de madrugada e que meu irmão insistia em ver achando que a casa já dormia. Lembro que a única novela que minha mãe me proibiu de assistir foi Tieta - adaptação do livro de Jorge Amado - em que Beth Faria reinava absoluta. Talvez a proibição ocorrera por total falta de habilidade materna em responder às perguntas que viriam após as calientes cenas.

 

Mas exceto esta trama, vi cenas inesquecíveis e ainda sou capaz de me arrepiar lembrando do casal Du e Milena, vividos por Eduardo Moscovis e Carolina Ferraz, embalado pela canção Palpite de Vanessa Rangel. Fui crescendo e acompanhando a teledramaturgia brasileira com certo distanciamento. Aí veio Avenida Brasil e aquela vontade de assistir cada capítulo com a mesma atenção e esmero de quem lê página a página de um bom livro. Uma curta pausa e Alexandre Nero logo me arrebatou com seu brilhante comendador.

 

Já estava bom pra mim. A pilha de livros crescia e eu precisava dedicar minhas noites a eles. Assim eu fiz por pouco mais de um ano até que Benedito Ruy Barbosa em parceria com o gênio Luiz Fernando Carvalho e grande elenco estrearam Velho Chico. O sertão à beira do Rio São Francisco, a organização social no mundo coronelista que insiste em existir nos dias de hoje, os diálogos, os sotaques, os figurinos, aquela gente bronzeada, suada e apaixonada que só a ficção é capaz de reunir me viciou como só drogas pesadas são capazes. Ainda tem a trilha sonora certeira que costura toda a trama. Garimpos sonoros raros. Um bálsamo! Destaque para Forasteiro na voz de Thiago Pethit e pra releitura de Marcelo Jeneci, Margarida.

 

Mas como, nesta altura da vida, não dá mais pra viver só de fábulas, Patti Smith me chamou pra realidade com seu novo livro, Linha M. Assim como a novela Avenida Brasil e a interpretação precisa de Nero já tinham preenchido e satisfeito minha alma fantasiosa, Só Garotos da escritora, artista, poeta e fotógrafa Patti Smith já tinha garantido o posto de ícone da minha geração. Pobre incauta!

 

Em Linha M, esta mulher, quase setuagenária, escreve sobre as perdas causadas pelo tempo, pelo acaso, pela circunstância e pela falta de sorte. Com uma prosa lírica, afetiva e nostálgica, Smith divide conosco seus sonhos, recordações, interesse, livros, e séries de televisão. Ela sente saudades de "como as coisas eram" e a gente sente saudade de coisas que nunca vivemos ao lê-la. Inspirador!

 

E pra finalizar minha tríade sobre arte-entretenimento - sem qualquer divisão entre elas - depois de surgir no cenário musical há pouco mais de uma década, a paulista Céu chega ao seu quarto álbum Tropix com a maturidade de compositora e cantora consolidada. E o disco é daqueles de se ouvir no repeat sem moderação.

 

Tudo isso pra dizer que estou num momento absolutamente feliz como espectadora, ouvinte e leitora porque meu cérebro e coração estão juntos e misturados.