A revolução é ROSA (choque)
Fabiane Pereira

27.10.2015

Sexta passada, fui assistir a estreia do projeto solo da cantora Ana Claudia Lomelino, o uterino mãeana. O espetáculo é de uma sensibilidade rara e fala, entre outras coisas, sobre a deusa que existe dentro de cada uma de nós, e que, na maioria das vezes, é subjulgada. Saí muito mexida dali, mas decidida a ser mais feminina.

 

O machismo reinante no mundo faz com que, nós mulheres, nos masculinizemos. O 'sistema operacional' do mercado de trabalho imposto há décadas exige uma dedicação comparada à escravidão dos séculos anteriores (repare bem), e poucas são as mulheres que ocupam altos cargos na pirâmide profissional, e que também são mães e também têm uma relação estável.

 

Minha opção, desde que me entendo por gente, é ser mãe, então, desde muita nova, sabia que não me encaixaria neste sistema. Mas muitas vezes, para impor respeito, me masculinizei. Não precisei tomar hormônios, nem coçar o saco, tampouco engrossar a voz. Mas, inúmeras vezes, precisei deixar minha sensibilidade e emoções de lado para ser respeitada exclusivamente pelo raciocínio lógico. E isso também é assédio.

 

Passei o fim de semana lendo os relatos da campanha mais corajosa que as redes sociais promoveram: #primeiroassédio. Mergulhar nestas águas, de onde todas nós mulheres descendemos e conhecemos intimamente, está sendo bastante doloroso.

 

A campanha no Facebook e no Twitter é só uma das respostas que o sexo (nada) frágil está dando ao presidente da câmara dos deputados, Eduardo Cunha, contra seu projeto de lei número 5069 que, entre outros desatinos, modifica a lei de atendimento às vítimas de violência sexual (12.845/13). Tal PL coloca em risco o exercício de direitos e deveres importantes em nossa sociedade e discrimina as mulheres.

 

Aí, eu te pergunto: diante dos milhares de relatos femininos sobre experiências de assédio sexual precoces, permanentes e corriqueiras, o corpo de quem precisa ser controlado? O nosso ou de quem fere, humilha, agride e assedia?

 

Sinceramente, não me lembro (graças a Deus!) de ter sofrido qualquer tipo de assédio durante a infância. Se sofri, era tão ingênua que o ato não me marcou. Mas, obviamente, já adolescente quase adulta, passei a identificar, diariamente, milhares de outros. Do 'fiu-fiu' dos peões de obra ao “vamos lá pra casa esta noite e o patrocínio sairá mais rápido” passando pelo abuso mais marcante de todos: um cara com quem me relacionei por quase dois anos invadiu um evento importante que eu estava promovendo, me chamando de louca, dizendo que eu fantasiei toda uma história e que a partir daquele dia jamais olharia na minha cara. Senti tanta culpa, que desenvolvi uma espécie de fobia social, que passou após várias sessões de terapia, que me conscientizaram do quão imbecil era o tal rapaz.

 

Continuo sofrendo abuso quando sou proibida, por um estado que se auto-intitula laico, de tomar decisões sofre meu próprio corpo. Sofro abuso quando sou julgada por sentar em um bar sozinha e pedir um chope. Sofro abuso quando ganho muito menos do que homens que exercem a mesma função que eu. Sofro abuso quando sou julgada por outras mulheres – muitas são até bem próximas – pelas minhas atitudes. Sofro abuso quando, diariamente, preciso provar que sou capaz de realizar projetos bacanas, mesmo já tendo um bom histórico, só por ser mulher. Sofro abuso quando exigem que eu coloque a razão na frente da emoção.

 

Não, eu não vou mais colocar a razão na frente da emoção. Eu as colocarei, de hoje em diante, lado a lado. E em meio a esta maré conservadora, também estarei ao lado de milhares de mulheres, nesta quarta-feira, às 18h, na Cinelândia para dizer: BASTA. O DIREITO DAS MULHERES PRECISAM SER PRESERVADOS (ou alguém aqui nasceu de chocadeira?).

 

A revolução, desde sempre, teve cor: ela é ROSA. Nos últimos anos, no Brasil e no mundo, ela é ROSA CHOQUE. Agora é tarde. Não vamos retroceder. #MachistasNÃOPassarão

 

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