Precisamos, SIM, falar sobre feminismo
Fabiane Pereira

01.10.2015

Comprei há seis meses, numa dessas livrarias de aeroporto, o (ótimo) livro "Feminismo e Política", de Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli (Editora Boitempo), mas pela falta de tempo – e por ter priorizado, neste período, outras leituras –, ainda não havia me dedicado a ele. Esta semana, numa madrugada insone, abri o livro e só fechei quando avistei pela janela (lateral do quarto de dormir) os primeiros raios de sol.

 

O livro toca em questões importantíssimas e nos ajuda a entender porque, apesar dos muitos direitos conquistados nas últimas décadas, as mulheres ainda são excluídas da política – fator primordial para entendermos os motivos da opressão masculina diária.

 

A desigualdade de gênero é um problema mundial de caráter político. SIM, POLÍTICO. A discrepância entre os direitos e deveres de homens e mulheres é um traço presente na maioria das sociedades, se não em todas. Desde as lutas pelo acesso das mulheres à educação, passando pelo voto feminino, pelo direito ao divórcio e pelo controle da sua capacidade reprodutiva, o feminismo precisou pressionar e romper com os limites da ordem estabelecida. Estas 'conquistas' forçaram, obviamente, mudanças na forma de pensar o mundo. Um mundo que já estava pensado e estruturado por homens. 

 

Até quando nós, mulheres privilegiadas, continuaremos caladas diante do machismo diário que sofremos? Porque não há, neste planeta, uma mulher que não tenha sofrido preconceito, pelo menos, uma dúzia de vezes desde que nasceu. Todos os dias, ouço, sinto, vejo e leio relatos de mulheres, de diferentes classes sociais, intimidadas em escalas maiores ou menores, pelo sexo masculino. E fico completamente sem ação. De mãos atadas, no sentido mais amplo desta expressão.

 

Estamos em um momento crucial na história do nosso país, e ficar em cima do muro ou se abster de opinar é SIM ser conivente. Quantas de nós ouvimos, quase que diariamente, insultos medonhos nas ruas ditos por homens, e invés de revidar verbalmente, baixamos os olhos e seguimos adiante? Que mulher nunca foi abruptamente agarrada pelos braços numa festa por um troglodita e invés de encarar preferiu 'deixar quieto'? Se nós, mulheres de classe média, com acesso à informação, nos calamos, o que dizer e, principalmente, como ajudar, as milhares de mulheres que sofrem com a violência do machismo, diariamente?

 

Se você, portador dos cromossomos XY, acha que a luta feminista é balela de um bando de recalcadas, veja estes números:

 

No Brasil, em 2001, 12,1% das mulheres tinham mais de dez anos de estudo e os homens 9,7%. Em 2008, estes números chegavam a 17,3% contra 14,3%, uma larga vantagem para as mulheres. Em 2009, quase 60% das matrículas do ensino superior eram de mulheres. Porém, mesmo assim, em 2015, as mulheres não ocupam as melhores posições no mercado de trabalho nem têm os mesmos salários quando executam as mesmas funções do que os homens. (Dados do IBGE - Série estatísticas e séries históricas, disponíveis no site)

 

Se formos aprofundar estes dados, dividindo-os entre mulheres brancas e mulheres negras, aí a coisa piora consideravelmente. Mas pior ainda é que não se trata apenas de remuneração. Em muitos locais de trabalho, mulheres de todas as etnias são expostas a pressões e constrangimentos que homem nenhum vivencia, vide xingamentos machistas direcionados à presidenta.

 

Apesar de termos uma mulher ocupando o cargo público mais alto da nação, não somos representadas na política. Numa sociedade sexista como a nossa, mais da metade da população faz jornada dupla em todas as classes sociais e NÃO fazemos nada, ou fazemos muito POUCO, para mudar esta condição.

 

Quando afirmo no início do terceiro parágrafo que a desigualdade de gênero é um problema mundial de caráter político me refiro à falta de creches, que penaliza as mulheres que têm filhos pequenos, me refiro à falta de atendimento direcionado e treinado para denunciar a violência doméstica (por mais que a legislação tenha avançado neste sentido), me refiro à falta de transporte público exclusivo para o sexo feminino (uma vez que os poucos que existem, muitas vezes, são ocupados também por homens por falta de uma fiscalização funcional). Enfrentamos inúmeros problemas no dia a dia, e a esfera pública ainda não consegue dar a atenção merecida a estes temas. É esta dualidade entre as esferas pública e privada que perpetua o machismo nosso de cada dia.

 

A esfera pública se reflete na privada, por isso não nos chocamos quando ouvimos nos noticiários que, em pleno século XXI, mulheres ainda são mortas e mutiladas por companheiros. As leis que afetam diretamente as mulheres no Brasil (e no mundo) continuam sendo feitas por homens, por isso a política de cotas é fundamental.

 

O livro aprofunda temas como justiça, autonomia, dominação, aborto (ou alguém duvida que se os homens engravidassem, o aborto já seria liberado em todas as sociedades há séculos?), educação familiar, pornografia e prostituição, além de pontuar, rapidamente, a importância de mulheres que ao longo da história ajudaram os movimentos feministas em algumas conquistas.

 

O caminho é longo, muito longo. Mas é preciso mobilizar TODAS as mulheres de modo que, quem sabe, nossas netas vivam em um mundo em que os seus direitos se equivalham aos direitos dos homens.

Tudo a ver com

Livro Filosofia e Política no Submarino