Pesadelos
por Fabiane Pereira

18.07.2016

Sonhos e Pesadelos

(para ler ouvindo o disco do Otto, Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos)

Acordei sobressaltada depois de um sonho ruim certa manhã. Lembro que era o primeiro domingo de inverno carioca e havia me deitado cedo na noite anterior. Nos meus devaneios noturnos, o telefone tocava e ao atender ouvia a voz da minha mãe, quase sufocada pelas lágrimas: "a Luiza morreu. Ela e o marido num acidente de carro nesta madrugada."

 

Luiza e eu crescemos juntas. Nossas casas eram na mesma rua e nossos pais sempre se deram muito bem. Sou um ano e dois meses mais velha que ela e apesar de nossos destinos terem seguido caminhos bem diferentes, Luiza é aquela amiga que sempre lembro com carinho, admiração e um pouco de inveja. Inveja porque sua vida, da distância em que me encontro, parece ser desenhada por Deus. Tudo se encaixou nas idades certas. Formou-se aos 22, conheceu o Dudu na faculdade e três anos após se formarem, casaram-se. Dois anos após a cerimônia, que parou a cidade, Luiza engravidou de um casal de gêmeos que nasceram saudáveis e hoje são os xodós da família dela e da minha. Ah, vale ressaltar que Dudu é herdeiro de um magnata da construção civil sendo assim, o extrato bancário da Lu jamais estará no vermelho.

 

Passadas as palpitações, levantei da cama, peguei o jornal que o porteiro já havia deixado por baixo da porta e sentei na varanda pra aproveitar os raios brandos do sol de inverno mas aquele sonho intranquilo ainda rondava meus pensamentos. Comecei a imaginar que ele não era tão inverossímil. A qualquer momento, a Luiza, eu ou qualquer um de nossos amigos poderia não estar mais aqui.

 

Imagina morrer sem nunca ter trocado uma ideia com o Chico Buarque. Sem ter conhecido Barcelona. Pensa na cagada que seria bater as botas sem ter ido a um show dos Rolling Stones. Morrer sem ter dado um neto pra minha mãe ou sem ter pedido perdão praquela amiga que magoei por causa daquele cara babaca.

 

Imagina morrer sem ter mandado Lobão procurar um tratamento psiquiátrico. Sem ter viajado por toda Itália dirigindo um conversível com meus óculos Gucci modelo dos anos 70. Imagina deixar este plano terreno sem ter lido todos os contos da Clarice Lispector ou pior, sem ter ido até o Leme tirar uma selfie com sua estátua. Precisaria de umas dez encarnações para me perdoar se eu deixasse esta vida sem ter me entregado de corpo e alma a uma grande e avassaladora paixão.

 

Às vezes, ter pesadelo é melhor que sonhar. Os sonhos nos mantém por algumas horas imersas naquela quimera. Já os pesadelos, quando nos lembramos deles, nos sacode e nos faz valorizar os momentos que passamos acordadas.