O “Paraíso” de Fernando Temporão
por Fabiane Pereira

20.09.2016

Fernando Temporão

Ele surgiu no universo musical carioca, nos idos anos 2000, mais conectado ao samba tradicional como integrante do grupo Sereno da Madrugada.  Em 2013, lançou seu disco de estreia solo, "Dentro da Gaveta da Alma da Gente", e começou a flertar fortemente com a nova cena musical contemporânea, também rotulados de "Nova MPB". Mas foi só agora, com o segundo álbum intitulado "Paraíso", que o cantor, compositor e músico Fernando Temporão se inseriu nesta cena no melhor estilo "veio pra ficar".

 

Produzido por Kassin - um dos preferidos desta nova geração por saber transformar, como poucos, esta informalidade musical nascida na internet para um produto potente no mercado fonográfico - "Paraíso" é daqueles discos que tomam o ouvinte de assalto. Mas não é um disco pra qualquer ouvinte. É disco pra ouvinte atento, cuidadoso e, principalmente, bem informado.

 

As onze músicas do repertório falam direta ou indiretamente sobre política. Mas fique tranquilo porque o disco não é panfletário. Temporão dá voz a um repertório inteiramente autoral que inclui parcerias com Alberto Continentino, Ava Rocha, Bruno Di Lullo, César Lacerda e Thiago Camelo. O cantautor carioca é um compositor bem acima da média e por ter navegado nas águas dos grandes bambas apresenta uma malandragem típica em suas letras repletas de metáforas.

 

Temporão é sagaz como poucos para, neste momento ímpar que o país atravessa, se fazer valer do amplo termo "política". "A minha música conversa o tempo todo com o ouvinte. Essa é a minha forma de compor. Eu sou um cara do diálogo, da construção de ideias, da palavra, da provocação verbal. E a política é um assunto central e mobilizador na minha vida. Acho que eu fiz uma escolha que não é nova nesse disco: a de conversar com o ouvinte, mas, dessa vez, falando de política, provocando reflexão, mas sempre de um jeito muito poético. Acho que minha música é o único – ou um dos únicos – instrumentos dos quais disponho pra atingir as pessoas", conta. "Estou num abismo o tempo todo: de um lado busco a melodia que cativa e emociona, e do outro, escrevo a letra que tenta pensar sem preguiça ou compromisso com a rima trivial. São opostos complementares. Isso não é novo como proposta. Mas é novo como disco porque esse disco é novo e o momento é novo. Fiz ‘Dança’ para o Eduardo Cunha e, mesmo não tendo sido eu o responsável pela queda vertiginosa do poder dele, acredito na energia das coisas e dos desejos. Eu chamo ele de “Música Ruim”. Pois bem, isso é política", explica um dos artistas mais interessantes desta nova geração.

 

É muito prazeroso ouvir um álbum como "Paraíso" porque ele aponta para um presente-futuro sem perder as referências do passado. É daqueles discos para se ouvir no repeat.

 

FP: Quanto tempo levou a produção de "Paraíso" desde a primeira música composta até o lançamento?

FT: O processo de feitura das músicas foi bastante espaçado, de alguma forma até preguiçoso. Na realidade esses dois anos e meio que separaram os lançamentos do "De dentro da Gaveta..." e “Paraíso”, foram justamente os dois anos em que me tornei pai e tive uma certa dificuldade com a questão do tempo, de como usar o tempo e como ter qualquer tipo de método pra trabalhar. Então tudo foi feito muito aos poucos, por partes e com muitos parceiros. Por conta dessa minha dificuldade com o tempo nesses últimos tempos, os parceiros entraram como uma benção e como uma solução desejada: me ajudaram a dizer o que eu nem sabia que poderia dizer e de um jeito que foi muito bonito pra mim. Então foi um processo longo, que ocupou boa parte desses dois anos, e terminou pouco antes da minha entrada no estúdio.

 

FP: Como se deu a escolha do repertório?

FT: É sempre uma escolha difícil, porque entre músicas antigas e novas o compositor costuma ter uma longa lista de canções no páreo. Mas nesse caso específico do ‘Paraíso’ acho que lá pela terceira ou quarta música pronta – e dadas as condições políticas do país já em 2014 e 2015 – eu tinha a certeza de que queria fazer um disco de alguma forma político, então isso acabou norteando as músicas que fui fazendo dali pra frente, mesmo as mais leves. Eu procurei uma unidade dentro do material que já tinha e fui trilhando um caminho, escolhendo dar voz ao meu mal estar, do meu jeito. Mas os parceiros ajudaram muito. Quando a Ava fez a letra de ‘Paraíso’ por exemplo, tudo o que eu queria dizer ganhou um contorno poético muito bonito e eu fui descobrindo que meus parceiros também estavam conectados com esse momento. A escolha acabou sendo muito em função de uma narrativa comum entre as canções.

 

FP: Apesar do nome, as letras das canções de "Paraíso" estão muito longe da pacificação idílica da floresta. Talvez esteja mais próxima dos vários "paraísos fiscais", locais receptivos a dinheiro público desviado em operações corruptas. Enfim, por que "Paraíso"?

FT: "Paraíso" me veio como ideia para o nome do álbum quando tomou esse lugar norteador no disco, de apontamento para uma direção. Ou seja, percebi que as canções estavam buscando alguma coisa em comum, transbordavam alguma ideia de melhora, de movimento, de implicação, de construção de uma nova narrativa em algum lugar no futuro. Em suma, as canções me mostravam desejando apontar caminhos para um lugar bom. A ideia, é claro, veio primeiro porque há no disco uma música com esse nome, que fala justamente sobre uma luta permanente: a luta pelo nosso lugar primeiro, pela nossa terra, pela paz, pela cultura e daí por diante. Então "Paraíso" encarnou a ideia primordial do disco que é a ideia de luta e de enfrentamento, mas não como realidade e sim como desejo e objetivo central da narrativa.

 

FP: Você acha que um dos papeis do artista é se posicionar politicamente uma vez que sua voz é amplificada?

FT: Eu não sei se é papel do artista se posicionar politicamente. O que eu sei é que seria melhor que todo artista tivesse a exata noção do poder que ele tem e de como a sua mobilização, num pais atrasado como o nosso, é capaz de promover mudança. Mas a verdade é que o atraso social brasileiro é justamente um dos grandes pilares para que se explique um mainstream musical absolutamente imbecilizante e vazio. E também não sei se a voz do artista é necessariamente amplificada. Vejo por exemplo os nichos de música contemporânea, do qual faço parte, falando para muito menos gente do que deveria/poderia, porque há um entendimento da mídia de que nossa sociedade é pouco inteligente, pouco capaz, pouco interessada e deve consumir o que há de mais fácil assimilação possível. E, mesmo dentro dos nichos de musica contemporânea onde os artistas supostamente são mais livres, por estarem justamente à margem do mercado e, portanto, menos reféns da grana, vejo poucos artistas preocupados com política. Os acontecimentos no país em 2016 certamente fizeram muitos artistas se manifestarem nas redes sociais e nos shows, o que é muito positivo na medida em que estamos sob o comando de um governo ilegítimo, mas isso é uma exceção, um efeito manada. A minha geração tem uma forma de se colocar no mundo, que dialoga muito pouco com a realidade, com a objetividade, com o pragmatismo. Eu me senti muitas vezes nos últimos anos um velho ao falar de fulano, de sicrano, de partido A e partido B... porque os artistas da minha geração estavam falando do cosmos, dos signos, do universo e dos seres de luz. Isso não é necessariamente um problema e nem é ruim. Mas acho que toda essa crise foi boa para que os artistas voltem a falar das coisas mais práticas possíveis do nosso mundo de carne e osso e passem a fazer uma política do real.

 

FP: O disco é cheio de parcerias. Como você analisa (do ponto de vista qualitativa, de oportunidades e visibilidade) esta nova cena musical contemporânea da qual você está inserido?

FT: Eu acredito muito na potência artística dessa cena contemporânea. Existe uma dificuldade enorme para trabalhar, pra tocar, para viajar, se apresentar, enfim, existe um problema prático para os artistas independentes: falta grana, faltam espaços com curadoria qualificada, faltam políticas públicas voltadas para essa cena. Mas sobram artistas com um trabalho de altíssimo nível. Nos últimos anos houveram avanços significativos nas políticas culturais governamentais, em todas as esferas, no sentido de um reconhecimento da arte das periferias, das vozes antes escondidas pela pobreza e pela ausência de reconhecimento da música antes marginalizada. Só que nesse processo, a música contemporânea, que representa outro nicho social, ficou sem espaço, sem lugar e, na crise do mercado e do país, ainda com mais dificuldades. Hoje as cenas contemporâneas das capitais brasileiras produzem uma música riquíssima, que quase ninguém pode ouvir. Falta circulação, oportunidade, política, falta tudo. A internet preenche alguma lacuna, mas o artista precisa estar nos lugares. Um disco não dá conta de representar um artista. Mas acredito nesse trabalho de formiguinha, lento e consistente. Hoje, a luta do artista contemporâneo independente é baseada no amor, apenas no amor e isso é um desastre, mesmo que bonito de se ver, porque estamos vivenciando esse momento trágico em que a música que desdobra uma linguagem mais complexa e intelectual – o que foi a MPB dos anos 80 -  se transformou num produto caótico: é barato (um show custa uma microfração de um show de um sertanejo ou de um rapper) mas é visto como luxo. É realizável (os discos são bem feitos, existe amparo de crítica) mas é visto como difícil. Ou seja, a música contemporânea no Brasil, embora seja popular por vocação, se encontra num patamar anterior ao da música clássica em termos de público e mercado. No fim das contas nós somos o retrato de uma música que o Brasil não escuta na rádio e nem na tevê, de uma música que se vira para estar viva e rodando por aí.

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