Mulheres de Cinzas
por Fabiane Pereira

29.09.2016

Mulheres de Cinzas

O feminismo me tomou de assalto no momento que entendi que sororidade e empoderamento não são só palavras esquisitas: são um outro jeito de estar no mundo. Acabou o silêncio, acabou a competição, acabou a solidão. Ser mulher é f@d# - com tudo que a palavra tem de dureza e maravilha. Ser mulher junto com outras mulheres é das coisas mais potentes que eu já vivi.

 

Mas o que isso tem a ver com o primeiro livro da trilogia "As Areias do Imperador", "Mulheres de Cinza", do escritor moçambicano Mia Couto, um dos mais premiados e prestigiados da língua portuguesa? Tudo.

 

O livro é um romance histórico sobre o último chefe do poderoso Estado de Gaza, que no século XIX desafiou lusitanos no território que viria a ser Moçambique – e morreu em 1906, capturado e exilado no arquipélago de Açores.

 

Pera...não entendi.

 

Vamos lá: O sargento português Germano de Melo foi enviado ao vilarejo de Nkokolani para uma batalha contra o imperador Ngungunyane ou Gungunhane, como os portugueses pronunciavam. Neste povoado, Germano conhece uma garota de 15 anos chamada Imani que passa a ser sua tradutora. Apesar de todas as diferenças entre eles - e acredite, são muitas - eles se aproximam. Mas Imani sabe que num país assombrado pela guerra dos homens, a única saída para uma mulher é passar despercebida, como se fosse feita de sombras ou de cinzas.

 

A jovem Imani é letrada, fala português e vive na única família da vila de costumes ocidentais. Já Germano é um republicano convicto que participou de uma revolta no Porto, Portugal, e foi enviado à colônia como punição. A voz feminina é protagonista de "Mulheres de Cinza". Em um dos trechos do livro a menina se apresenta da seguinte maneira:

 

"Chamo-me Imani. Este nome que me deram não é um nome. Na minha língua materna “Imani” quer dizer “quem é?”. Bate-se a uma porta e, do outro lado, alguém indaga: — Imani? Pois foi essa indagação que me deram como identidade. Como se eu fosse uma sombra sem corpo, a eterna espera de uma resposta".

 

Do outro lado, alternada à voz de Imani, temos as cartas que o sargento Germano de Melo envia a Portugal relatando sua experiência no vilarejo. Em uma delas, ele escreve: “Confesso começar a sentir uma atração por Imani. (…). E não é apenas um sentimento carnal. É algo mais intenso, mais total, algo que jamais havia sentido por uma mulher branca”.

 

No livro o corrosivo quadro da condição feminina e das guerras conduzem a história. Num dos diálogos nos deparamos com a seguinte citação: “A diferença entre a Guerra e a Paz é a seguinte: na Guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na Paz, os pobres são os primeiros a morrer. Para nós, mulheres, há ainda uma outra diferença: na Guerra, passamos a ser violadas por quem não conhecemos”. Trocando em miúdos: a cultura do estupro é mundial e não exclui classe social.

 

Mia costuma usar diferentes períodos históricos de sua nação como pano de fundo de suas obras mas é a primeira vez que o autor se debruça tão minuciosamente sobre uma época e escreve uma série literária. O segundo e terceiro volumes da trilogia têm previsão de lançamento para este ano e 2017, respectivamente. A leitura vale a pena pelo prazer literário, pelo resgate histórico de Moçambique e pelo debate sobre uma realidade tão complexa e cotidiana vivida por milhares de mulheres mundo afora.

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