Mea Culpa
por Fabiane Pereira

17.03.2016

Chuvas

Em uma cidade tropicaos como o Rio de Janeura, todos os dias as editorias de cidade estão repletas de pautas mas o mesmo não acontece com o cronista já que tirar beleza do caos é tarefa árdua. Aí, num dia de completa falta de inspiração e dead line estourado, o pobre cronista que precisa cumprir sua obrigação e mandar sua crônica pro jornal ou pro site em duas horas resolve se meter com política, aí descobre que seria melhor ter cutucado uma casa de marimbondo com a unha.

 

Faço mea culpa. A política tem mesmo muitas faces. Não sei se os problemas infinitos do Rio, do Brasil e do planeta têm solução. Também desconheço o sentimento (genuíno) de um ser humano que assume um cargo público. Pra não me estender, prefiro acreditar que é pura ânsia de fazer o bem sem olhar a quem. Contraditoriamente, na política é mais seguro não tomar partido, não omitir opiniões, morar em cima do muro. E eu, completa idiota, mesmo sabendo disso, resolvi vociferar nas redes sociais (onde mais?) depois de chegar em casa completamente encharcada pela última enchente que assolou a cidade (até esta crônica ser publicada, a última já se tornou a penúltima, quiçá a antepenúltima).

 

Fui apedrejada. Afinal só me enfezei quando as ruas da zona sul foram inundadas por uma água fétida. Em outros locais da cidade, isso acontece todos os dias mas eu, mulher insensível, nunca me enfezei.

 

É, vocês têm razão e eu assumo esta mea culpa. Estou em um processo contínuo de desenvolvimento da empatia mas às vezes derrapo e volto três casas. A etapa deste jogo onde eu mais avancei foi a de sororidade*. Boa parte vai continuar me apedrejando dizendo que não me importo com uma geração inteira de machos perdidos sem saber como lidar com as mulheres da geração X, Y e Z. Mas *este pacto entre as mulheres se reconhecendo irmãs numa mesma dimensão ética, política e principalmente na prática do feminismo contemporâneo tem me feito sair sem medo de cima do muro.

 

Comemoro cada vitória das mulheres como um gol olímpico. Saber que só em 2016 a Alerj aprovou, ainda em primeiro turno, o projeto de lei apresentado pelo PSOL que proíbe detentas de entrarem em trabalho de parto algemadas é de sentar na escadaria e chorar. Eu, pobre cronista incauta e inculta, desconhecia esta prática tão comum nas penitenciárias brasileiras. Saber que falar sobre o feminismo virou "modinha" é de comemorar como gol de final de Olimpíadas porque torna a violência contra a mulher inaceitável de fato e nos dá esperanças de num futuro próximo jamais um secretário de governo e pré-candidato a prefeitura de uma cidade como a do Rio de Janeiro venha a público retratar o espancamento de sua ex-companheira como um acontecimento natural, cotidiano e de fórum privado.

 

Mas já que resolvi falar mais uma vez de política, vamos escancarar geral. Segundo os jornais, no último domingo o prefeito da cidade olímpica levou um de seus filhos na emergência do Hospital Municipal Lourenço Jorge e constatou o óbvio: há uma falta de atenção dos médicos da unidade com os pacientes que aguardam atendimento. A falta de atenção é um pleonasmo para "atendimento precário" e este é diário, senhor prefeito. E não apenas no Lourenço Jorge mas em todos os hospitais públicos localizados na área geográfica identificada como Rio de Janeiro. Ouvi, inclusive dizer que em Bangu existe um hospital onde as grávidas se ajoelham pra não serem internadas devido à alta incidência de mortes e barbeiragem. Aliás, também segundo os jornais, a médica que atendeu o filho do prefeito foi demitida sabe-se lá porquê (ou melhor não mexer mais neste vespeiro).

 

Tempos estranhos, né?

 

Passando por uma banca, li nas capas dos maiores jornais do país que neste fim de semana o Brasil foi às ruas. Se eu não saí de casa, concluo que sou estrangeira. Li também que o protesto de ontem foi a maior manifestação política já registrada no Rio de Janeiro. Eloquente mas falso.

 

Ninguém, nestas horas, se lembra da parada LGBT? Sim, esta é a maior manifestação política no sentido mais stricto senso do termo e todos os anos, religiosamente, bota no mínimo o dobro de pessoas na mesma Avenida Atlântica. Mas nestes tempos de cólera devo estar errada. Vou ali queimar meus livros de Foucault, Deleuze e reativar a assinatura do jornal.

 

É saudável que se conviva com quem pensa diferente, ou ainda, quem discorde totalmente de sua opinião. Com respeito, delicadeza até, o diálogo flui. Com humildade podemos rever nossas posições ou para reafirmá-las ou para reconsiderá-las. Claro que se não houver educação - é o mínimo - e houver agressões verbais, é direito apelar ao bloqueio ou à exclusão no facebook. Confesso que quando leio defensores do cúmplice e do agressor de mulheres uso à exaustão meu direito de bloqueio. Ok, faço mea culpa novamente.

 

Acho nobre defendermos nossos pontos de vistas, mas não podemos nos esquecer do bom e velho ditado popular: o seu direito termina quando o meu começa.

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