Inverno no Rio
Fabiane Pereira

22.07.2015

Foto: www.cidadedorio.com

A gaúcha Adriana Calcanhotto já afirmou que "o inverno no Leblon é quase glacial" em sua canção homônima à estação mais fria do ano. Quase um dito popular aqui no Rio de Janeiro, esta frase só é compreendida por quem é carioca ou já mora na cidade há algum tempo. Afinal, em que outro lugar no planeta as pessoas saem encasacadas, com echarpes enroladas no pescoço e galocha em plenos 20°C?

 

A “friaca” carioca (e todo dress code de inverno) dura pouco mais de dois meses, mas é charmosérrima. O friozinho discreto que paira por aqui proporciona uma elegância diferente do 'nosso' habitual. Não nasci no Rio, mas já sou local – são 17 anos morando na cidade mais linda (e crazy) do mundo – e adoro os meses de julho e agosto, quando as temperaturas não batem, diariamente, os 40 graus.

 

Caminhar na Lagoa ou na orla, sem suar em bicas, é muito mais prazeroso. Andar de bicicleta e dar um mergulho no mar, só pelo prazer de saudar Iemanjá – e não por estar derretendo –, me deixa muito mais feliz. Brindar com Baco ao lado do amor e dos amigos num ambiente mais íntimo é contentamento latente. Dormir de conchinha sem ter o ruído do ar-condicionado como trilha sonora possibilita que eu sinta partes do meu corpo adormecidas durante o resto do ano. Sentir frio na sombra e calor no sol é outra característica típica dos cariocas nesta estação. Sentir o cheiro (genuíno) das pessoas e ver o modo como elas, elegantemente, se vestem faz do inverno do Rio uma época cheia de singelezas e particularidades.

 

Moletom e chinelo são combinações hypes por aqui. Short e cachecol fazem uma dupla imbatível. Saia e bota: dobradinha top one. Meias coloridas, batons e esmaltes em tons mais sóbrios; cabelos sedosos e soltos (porque não rola de bancar a Pocahontas com 40°C na moleira); dançar juntinho (pra entrar numa quadrilha, há de se ter um par. Já pra se perder nos blocos...); ver o céu escurecer mais cedo e a lua cheia ficar ainda mais redonda; assistir a um bom filme nos cinemas do circuito Estação; marcar encontros nas livrarias e não nos botecos; trocar o chope por um chá das cinco e, aos poucos, perceber que o inverno vai se impondo...

 

Eu gosto de morar numa cidade onde faz sol o ano inteiro. Mas justamente por aplaudir o por do sol do Arpoador todos os dias de verão, por tomar banho de cachoeira sempre que tenho vontade, por tomar aquele chope gelado na roda de samba da Pedra do Sal ou na mureta da Urca, por cantar junto com Moacyr Luz no 'Samba do Trabalhador' todas as segundas do horário de verão, e por fazer tantos programas típicos durante a primavera, o verão e o outono, eu dou muito valor aos meses em que a temperatura cai e o carioca permite-se recolher. 

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