Exercício
Fabiane Pereira

20.08.2015

Antes de começar a desenvolver este texto, fui pesquisar (no "santo Google") o significado da palavra ritual. De acordo com a wikipedia, ritual é o conjunto de práticas consagradas por tradições, costumes ou normas, que devem ser observadas de forma invariável em determinadas cerimônias. Ritual é uma cerimônia através da qual se atribuem virtudes ou poderes inerentes à maneira de agir, aos gestos, às fórmulas e aos símbolos usados, suscetíveis de produzirem determinados efeitos ou resultados. Ritual é um processo continuado de atividades organizadas cuja prática está relacionada a ritos, que envolvem cultos, doutrinas e seitas, encontrados não só na vida religiosa, mas em todas as esferas culturais. No sentido figurado, ritual é uma rotina, aquilo que habitualmente se pratica, é uma etiqueta, uma regra, um estilo usado no trato entre as pessoas. 

 

A escrita para mim sempre foi algo sagrado. Tão sagrado que só me permiti uma aproximação mais íntima após dez anos exercendo a profissão de jornalista. A escrita cotidiana, principalmente àquela narrada a partir da apuração dos fatos, me é mais familiar, talvez porque o ritmo de uma redação – independente do segmento, seja impresso, televisivo, digital ou radiofônico – me obriga a produzir resultados. E na era digital, resultados são imediatos. E sabemos que o imediatismo é do campo do profano, não do sagrado.

 

Por isso, para descrever os processos pelos quais passo quando vou exercitar minha escrita, precisei recorrer ao significado da palavra ritual, porque a ela atribuo as práticas sacrossantas. Contudo, vou me apegar no sentido conotativo (ritual como rotina) para dizer que, ao contrário do que imaginei, não faço da escrita um ritual.

 

Em momentos onde o ócio e o silêncio faltam, minha maior inspiração para o exercício da escrita é o deadline – vício de jornalista, sem dúvida. Adentrar nesse lugar sagrado exige regras, mas elas variam de texto para texto, que por sua vez varia de leitor para leitor, e, consequentemente, de publicação para publicação.

 

Não tenho o hábito de escrever para engavetar. Não tenho (nem nunca tive) cadernos de poesias, não durmo com um bloquinho do lado para anotar ideias noturnas e nem a exercito com a finalidade de aperfeiçoamento (embora, óbvio, este seja inevitável); porém, recorto, imprimo (quando é site) e catalogo tudo que me afeta ou me atravessa de alguma forma, tudo que em algum momento possa servir de inspiração.

 

Silêncio (quase) absoluto e ambiente familiar (principalmente aqueles repletos de memórias afetivas) são essenciais para que eu desenvolva um pensamento. Por isso, as madrugadas são boas companheiras. Água gelada também. Quando a inspiração não vem, por mais que eu clame sua presença, uma taça de vinho (ou até uma garrafa) ajuda.

 

Gosto de pensar que um mesmo texto pode ser lido através de uma (micro) tela de celular, no metrô após um dia exaustivo ou num tablet dentro do táxi após um dia preguiçoso, ou ainda num super laptop com tela cinematográfica durante uma tarde em Itapoã – e ele precisa afetar os três leitores de maneira equivalente (embora seja o manancial de informação de cada leitor, o fator decisivo para isso).

 

Como qualquer exercício, a frequência é extremamente importante (cérebro é músculo) para que o resultado seja alcançado. Todos meus textos começam já nomeados – minha confusão mental não permite que eu viva num caos literário, onde vários textos flutuam sem títulos –, mas o título pode mudar inúmeras vezes até que eu aperte a tecla send. Tudo que escrevo é biográfico e ficção. Tudo é indireta (ou direta).

 

Quando empaco, bebo água (ou vinho), levanto, lavo o rosto, mexo no celular (este grande ladrão de tempo) e volto empenhada em prosseguir. O bloqueio criativo pode ser insistente e nem sempre só o empenho é capaz de fazer as coisas fluírem, mas sigo a máxima, 'nada que uma noite bem dormida entre um dia e outro não resolva'.

 

Bons papos, livros, shows, filmes, exposições, audições me enriquecem. Ler opiniões de pessoas que admiro sobre determinados assuntos também. Muitas transformam-se em ótimos desdobramentos e em boas provocações. Já a patifaria generalizada dos nossos políticos e as mazelas sociais me tiram o brilho, a inspiração, a calma e, obviamente, a paixão. E sem paixão não dá nem pra chupar picolé (Viva Nelson Rodrigues!).

 

Invejo os grandes cronistas. Narrar o cotidiano é uma das maiores dificuldades que encontro apesar de me considerar uma boa observadora do meu tempo contemporâneo. Relatar acontecimentos dando fluidez à escrita e, consequentemente, à leitura não é para amadores, tão pouco principiantes.

 

Depois que o texto é parido, releio pelo menos mais cinco vezes para ver entre quais frases faltou vírgula, qual palavra se adapta melhor àquela mensagem e o que está sobrando (já dizia Drummond, "escrever é a arte de cortar palavras"). Para a maioria, a escrita acaba aqui. Pra mim é o ponto de partida. Quando o feedback dos leitores chega, já começo a me inspirar para recomeçar todo o processo.

 

 

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