Como vencer um Oscar
por Pablo Villaça

19.02.2015

Oscar 2015

Para ganhar o Oscar não basta fazer um filmaço. Tem que incomodar pouco.

Todos os anos, ao escrever sobre o Oscar e sobre as disputas envolvidas, busco lembrar os leitores de que se trata de uma eleição – e que, como tal, é influenciada pelo orçamento disponível para as campanhas feitas pelos estúdios, que investem pesado em seus candidatos promovendo festas especiais com exibição dos longas e presença do diretor e do elenco. Quando Tom Hooper venceu por seu trabalho pavoroso em O Discurso do Rei, apontei que ele, um britânico, havia se mudado para Los Angeles por três meses para fazer campanha.

 

No entanto, há outra questão importante que devemos considerar ao avaliar os vencedores na categoria de Melhor Filme: o fato de que raramente um filme que desafia o público costuma vencer. Não é à toa que produções que fogem do lugar-comum em termos de linguagem ou que abordam temas particularmente polêmicos jamais vencem. Quando apontei, por exemplo, que O Segredo de Brokeback Mountain, considerado favorito absoluto por muitos, tinha um caminho mais difícil do que se imaginava rumo à vitória, indiquei sua temática justamente como seu maior empecilho: era um filme importantíssimo, belíssimo, sensível, mas que abordava um tema que simplesmente incomodava muitos eleitores da Academia – que, demograficamente, vem envelhecendo rapidamente por ter membros vitalícios e só incorporar algumas dezenas de novos integrantes por ano.

 

Pois a questão principal que devemos levar em consideração na categoria Melhor Filme é a seguinte: filmes que dividem o público sempre perdem, mesmo tendo boa parcela de defensores radicais. Para vencer o Oscar, não adianta ter muitos defensores; é imperativo ter poucos detratores. Na realidade, a categoria principal da premiação tende a favorecer o lugar-comum, o café-com-leite. Filmes simpáticos, que não ameaçam, mesmo sendo medíocres ou irrelevantes como Arte.

 

Filmes como O Discurso do Rei, Gladiador, Quem Quer Ser um Milionário?, Shakespeare Apaixonado, O Paciente Inglês, Conduzindo Miss Daisy e tantos, tantos outros.

 

A razão para isso reside no sistema usado pela Academia para definir o vencedor. É um sistema que favorece não exatamente aquele filme amado por certos grupos, mas aquele que inspira um sentimento de “É bonitinho” por parte da Academia como um todo. Trata-se do voto preferencial.

 

Funciona assim: os cerca de 6.300 membros da Academia recebem a instrução de – apenas na categoria principal – ranquear todos os indicados, do preferido ao que menos gostam, em vez de votar apenas no favorito. A partir daí, os auditores da PriceWaterhouse Coopers separam os votos levando em consideração apenas o número um no ranking. Em seguida, eliminam o filme menos votado e redistribuem seus votos para aquele que se encontrava na segunda posição. E repetem o processo: eliminam o longa que agora é o menos votado e redistribuem as cédulas para o segundo colocado – e caso este já tenha sido eliminado, consideram o que se encontrava na terceira posição.

 

Este procedimento se repete até que algum filme tenha 50% dos votos mais um.

 

Um exemplo: consideremos que, no primeiro round, o resultado tenha sido:

Boyhood – 1.200 votos
Birdman – 1.190 votos
Grande Hotel Budapest – 950 votos
O Jogo da Imitação – 650 votos
A Teoria de Tudo – 640 votos
Sniper Americano – 500 votos
Selma – 450 votos
Whiplash – 400 votos

 

Estou considerando que apenas 5.980 membros votaram este ano; a abstenção costuma ser maior. Como nenhum filme conseguiu 2.991 votos (metade mais um), o último colocado é eliminado e suas cédulas são redistribuídas de acordo com o título que se encontrava na segunda posição. Suponhamos que o novo resultado tenha sido:

 

Birdman e Boyhood - 1.250 votos
Grande Hotel Budapeste – 1.000
O Jogo da Imitação – 800
A Teoria de Tudo – 680
Sniper Americano – 540
Selma – 490

 

Selma, portanto, é o novo eliminado e suas cédulas são redistribuídas. Aquelas nas quais Whiplash se encontrava na segunda posição continuam a valer – mas contando o filme que tinha sido ranqueado em terceiro lugar. Novo resultado:

 

Birdman – 1.280
Boyhood – 1.270
O Jogo da Imitação – 1.050
Grande Hotel Budapeste – 1.020
Sniper Americano – 700
A Teoria de Tudo – 690

 

Tchau, A Teoria de Tudo. Seus votos são redistribuídos (ignorando, claro, os já eliminados). O maior beneficiado é aquele título que também acompanha a história de um cientista real com vida trágica, O Jogo da Imitação. Em seguida:

 

O Jogo da Imitação – 1.400
Boyhood – 1.340
Birdman – 1.290
Grande Hotel Budapeste – 1.150
Sniper Americano – 830

 

Com a saída de Sniper Americano, as coisas começam a se definir. Consideremos que o perfil do eleitor deste filme é demograficamente mais velho e conservador quanto à linguagem. Filmes mais experimentais como Birdman e Boyhood não são exatamente obras que fazem parte do mesmo estilo, ao passo que Grande Hotel Budapeste é wesandersoniano demais. O mais tradicional dos indicados leva a maior parte dos votos: O Jogo da Imitação.

 

O Jogo da Imitação – 1.815
Grande Hotel Budapeste – 1.410
Birdman – 1.395
Boyhood – 1.390

 

Reparem que os filmes que inicialmente se encontravam nas primeiras posições agora estão nas últimas – e, na realidade, aquele que teria vencido caso a votação fosse simples e considerasse apenas o primeiro voto, agora foi eliminado. Mais: para sair vencedor, O Jogo da Imitação precisa arrecadar apenas mais 1.176 dos 4.195 votos restantes.

 

Considerando que é um filme que provoca menos debate do que Birdman e menos divisão do que Grande Hotel Budapeste (que é wesandersoniano demais, vale repetir), não é difícil supor que, nestas circunstâncias, seria eleito Melhor Filme.

 

Embora tenha ficado na quarta posição no voto inicial.

 

Então, repito: para vencer o Oscar, não adianta ter muitos defensores; é imperativo ter poucos detratores. Na realidade, a categoria principal da premiação tende a favorecer o lugar-comum, o café-com-leite.

 

Pois, como podem perceber, no sistema preferencial, você pode não apenas votar no seu favorito, mas também votar contra aqueles filmes que detesta. Basta colocá-los nas últimas posições da cédula.

 

Por isso, sugiro que jamais tentem usar o Oscar como sinônimo de qualidade. É um prêmio divertido e relevante do ponto de vista comercial e, sim, histórico (especialmente por ser tão antigo e por ser definido por membros da própria indústria).

 

Mas não se trata de uma Palma de Ouro, de um Urso de Ouro nem nada do gênero no que diz respeito ao seu valor artístico. Ao menos, não necessariamente, embora aqui e ali as duas coisas coincidam e provoquem um prazer inesperado nos cinéfilos dedicados.

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