Bode – ou a preguiça do blasé
Fabiane Pereira

09.11.2015

Quando me perguntam por que tenho bode (apesar de fazer parte dele) deste micro cosmo da Zona Sul carioca, eu tento explicar exatamente isso aqui: não é pessoal, não é específico, não é sequer um lugar exatamente, mas é esta atmosfera cool que paira nesta cidade. Melhor dizendo, nestes bairros próximos à Lagoa. Poucos são alguém aqui. A maioria é ninguém. E dá muito trabalho ser alguém se você nasceu de ninguém, entende?

 

Esta necessidade de ser cool o tempo todo ainda vai acabar com a humanidade. Ok, não vai acabar com a humanidade, mas acabará com o Rio, fato. Nem que seja só em 2222, mas vai. Sabe gente que não relaxa nunca de querer parecer relaxado na vida? Pode crer, é gente dessa parte do Rio. Não sei como consegue perder tanto tempo escolhendo o calçado que dará o ar mais 'tô fashion, mas nem ligo pra moda', a bolsa hypada que foi uma pechincha numa feirinha de Londres ou o top daquela marca queridinha que só cabe em quem é anoréxica ou faquir.

 

A quantidade de cafeína que se toma ao longo do dia, nessa cidade, também me dá bode, principalmente se levarmos em conta a temperatura média de 30° C. Repare, os coffee shops são o “novo preto”, por isso qualquer encontro, casual ou profissional, é marcado num café. E quem odeia café, faz o quê? Pede suco?

 

Meu bode cresce à medida que caminho pelas ruas e vou encontrando pessoas conhecidas – muitas sentadas em cafés moderninhos – tentando impressionar uma nova e terceira pessoa, obviamente tão interessante quanto ela própria. Esta cena é bem comum por aqui. Esse tipo de gente que fala de café, sabe tudo de vinho e discos, é superviajada, mas só vê filme em shopping.

 

Em uma destas caminhadas, encontro uma amiga (querida!) que se encaixa em todos estes clichês, e antes dela começar a me contar que está trabalhando na melhor editora de todos os tempos da última semana, eu a interrompo e disparo: eu JURO que dá pra ser amada, ganhar dinheiro (não muito, mas dá) e desenvolver projetos superlegais fazendo parte da massa.

 

Ela sem entender, tira seus óculos top trend, me olha no olho e diz: “vamos tomar um café e falar mais sobre isso?”

Tudo a ver com

Livro 'Som & Pausa