Berlinda virtual – ou como não se matar na web
Fabiane Pereira

18.08.2015

Não preciso dizer (ou preciso?) que este texto contém ironia. Acredito no potencial dos leitores, mas em tempos de cólera, todo cuidado é pouco. Porque não basta ler, é preciso entender as entrelinhas. A terceira revolução industrial está nas ruas e quem duvida disso está ainda pior do que eu na esfera de compreensão mundana. Precisei assistir Matrix três vezes para não 'boiar' na rodinha da escola e voltei a assisti-lo outras duas para relembrar e novamente não 'pagar de burra' na rodinha da faculdade.

 

Começamos a ser bombardeados por informações já nos primeiros segundos do dia, quando, antes mesmo dos nossos olhos se acostumarem com a luz que adentra pela janela do quarto, esticamos o braço para pegar, ao lado da cama, o celular e verificar e-mails, mensagens de whatspp, inbox no face, DM no twitter, posts mais compartilhados, a edição diária dos principais jornais do país.

 

Quem disse ou onde está escrito que esta geração da qual eu pertenço precisa saber de tudo? Não sei, mas precisa. Peraí, como 'não sei'? 'O advento dos meios técnicos informacionais' (expressão que aprendi estudando Geopolítica para o vestibular, absorvida por osmose e usada sempre que divago em [pseudos] ensaios) gerou gerações de especialistas em superficialidades. Todo mundo sabe de tudo, mas ninguém sabe propriamente de nada.

 

Após um minucioso estudo cruzando dados e algoritmos, chegamos à conclusão de que a 'academia' responsável pela formação desta geração de “especialistas” se chama Facebook. Em outras palavras: a culpa é do Zuckerberg.

 

A coisa começa assim e é sempre do mesmo jeito: o grupo dos 'alienados' troca seu avatar para apoiar uma conquista norte-americana. Daí vem o grupo dos 'conscientes' criticando quem trocou o avatar, com os mais bizarros argumentos. Em seguida, vem a turma que critica quem criticou. E após esta fase, ninguém lembra mais se faz parte do grupo dos alienados ou dos conscientes, assim começam as ofensas pessoais numa verdadeira berlinda virtual.

 

Passamos o dia de cabeça baixa com os olhos focados numa (micro) tela, seja de smartphone, tablet ou laptop (os americanos – sempre eles – já deram até nome pra nós: the heads down generation). E veja a contradição ou, como diz Gregório Duvivier (um gênio da minha geração), o paradoxo temporal: uma das maiores reclamações da sociedade contemporânea é a hipertrofia das agendas – crianças com menos de cinco anos têm agendas comparáveis a de grandes executivos, tamanha a quantidade de afazeres – mas quando se abre uma brecha no dia, ao invés de aquietar a mente, sacamos logo o celular da bolsa para checar e-mails, mensagens e blá-blá-blá.

 

Estamos nos tornando máquinas cibernéticas construídas a partir de camadas reais e virtuais sobrepostas caleidoscopicamente. E tudo leva a crer (observe ao seu redor) que não está dando certo. Não faz parte do que os psicanalistas chamam de 'normalidade' vermos todos os dias pessoas (pseudo) esclarecidas se digladiarem nas redes sociais por lerem (micro) textos postados, na maioria das vezes, por outras pessoas tão (pseudo) esclarecidas quanto.

 

Já experimentou não mexer no celular enquanto está guiando seu automóvel e ouvir as músicas (cantando junto, claro!) que estão tocando no rádio? Já experimentou trocar as aulas de ginástica localizada para correr na orla enquanto seu filho anda de skate ao seu lado? Já experimentou pegar aquele livro empoeirado da estante e se concentrar nele por sete noites ininterruptas invés de baixar e-books e ser interrompido a cada mensagem que chega em seu tablet? Já experimentou deixar a vida fluir sem tantos compromissos e lembretes?

 

Acho nobre defendermos nossos pontos de vistas, mas não podemos nos esquecer do bom e velho ditado popular: o meu direito termina quando o seu começa. Acredito que há um ponto em comum em toda discussão virtual: todos defendem a liberdade de expressão, então, pelo menos, discordemos civilizadamente, senão fica contraditório.

 

 

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