Aurora
Fabiane Pereira

12.12.2015

Mini Fabi e sua avó Aurora.

É difícil conseguirmos 'ser' na escrita (literária), porque a 'memória é uma ilha de edição' (Salve, Waly!), mas minha construção de romance familiar jamais começaria por outra pessoa senão por ela. Somos sete netos e, durante toda minha infância, éramos sete em seu quintal diariamente. Lembro-me (não estou muito certa) que entre brincadeiras e aulas de crochê – foi ela quem me ensinou a fazer biquinho em pano de prato (!!), gastronomia, tricô e corte-costura (sim, sou moça prendada!) –, nos empanturrávamos com pastéis, doce de leite, pipoca e canjica (quase que) diariamente. Cortava nossos cabelos, assava bolos e, até hoje, muitas das verduras que comemos são cultivadas e colhidas por ela.

 

Decidi contar histórias, para o resto da vida, naquele quintal. De tanto brincar de jornalista, acreditei na fantasia, e cá estou, vinte e tantos anos depois. Sua máquina de costura já me levou muitas vezes para o espaço ao ser transformada em disco voador. Fui a chef mais premiada do mundo em seu fogão. Inventei, junto com meus primos, o teletransporte, muito antes dos cientistas pensarem nesta possibilidade. Aprendi a gostar de plantas vendo a dedicação que ela sempre teve com as suas. Esta infância idílica só foi possível, porque ela é daquelas avós criadas por Monteiro Lobato. E eu sentia, intuitivamente, que isso fazia dela uma criatura muito interessante.

 

Matriarca, mãe de três filhos, ficou viúva ainda jovem, e desde então não tirou o luto. Mas o preto faz parte apenas do seu figurino. Católica fervorosa – sua casa ainda está localizada ao lado da igreja do bairro –, presenteou todos os netos com uma bíblia. Dizia (e ainda diz) que nenhum livro no mundo era tão importante quanto a bíblia. Acreditei pra não contrariá-la e, hoje, agradeço pelo exemplo de fé.

 

De acordo com minha mais remota lembrança, meus braços viviam roxos por causa de seus beliscões corretivos. Naquela época, nós, pobres crianças indefesas, não éramos defendidas pelas leis (contém ironia!) e ela é daquele tipo que nos poupava das broncas dos pais, mas não passava a mão na cabeça.

 

Aos sete anos, tive piolho pela primeira vez. Começava aí minha sina. Aos oito anos tive piolho, de novo, e ela gastou (muitas) horas e suas vistas para resolver o problema. Aos nove anos, novamente, 'peguei' piolho... sim, era a mais piolhenta da família, e ela, pacientemente (apesar do vinagre quente e do pente fino), deu fim aos bichinhos mais uma vez. Posso sentir o cheiro de alfazema. Aos dez anos, tive piolho, e se não fosse a dedicação diária dela, seria uma piolhenta até hoje.

 

Batizada como Hortência, minha avó nunca atendeu a quem a chamasse assim. AURORA é o nome dela. E assim como a definição do Aurélio, ela é a claridade que aponta o nascer de um novo dia, as primeiras manifestações de qualquer coisa. Minha avó é vanguarda. Minha avó é exemplo.

 

Que meus filhos tenham uma avó como a que eu tive.

 

Mãe, não vai ser fácil pra você, mas tenho certeza de que assumirá o bastão com muito amor.

 

 

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