Amar, verbo transitivo direto
Fabiane Pereira

07.08.2015

Parece óbvio, mas ninguém sintetizou melhor as idas e vindas do amor que Vinícius de Moraes em "Samba da Benção", com o verso a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. O poetinha não viveu num mundo tecnológico nem no Rio de Janeiro dos dias de hoje. Talvez o cachorro engarrafado não fosse o whisky, esim o MDMA.

 

Sou uma grande defensora da minha geração, essa gente de trinta e poucos anos. Somos filhos de um país novo, de uma democracia recém-estabelecida, de pais e mães que viveram o amor livre, de mulheres fortes que formaram famílias trabalhando oito horas (ou mais) fora de casa.

 

Quando criança, brincávamos nas ruas (ou nas casas dos colegas de escola ou vizinhos), adolescentes íamos para hi-fis e o primeiro beijo acontecia por volta dos 12 ou 13 anos. Tudo isso agendado no tête-à-tête ou pelo telefone (os mais moderninhos, via ICQ). Os anos passaram, o computador foi diminuindo consideravelmente de tamanho, até que os tablets passaram a ser uma extensão do nosso corpo. E aí, fu-deu!

 

Longe de mim levantar qualquer bandeira contra os aparatos tecnológicos, as redes sociais e todos seus benefícios. Sou, como já disse outras vezes por aqui, bem dependente do wi-fi e de um bom 4G... Mas verdade seja dita: o que sempre foi complicado piorou muito com o avanço e o controle da tecnologia sobre nossas ações.

 

Nunca soube de um período histórico-artístico, desde que o mundo é mundo, em que se relacionar afetivamente com alguém fosse fácil. Já amaldiçoei os românticos que hipervalorizavam os sentimentos e as emoções, mas, hoje, me arrependo.

 

Sou contra generalizações, mas ouso fazer uma: minha geração é muito pau mole (Salve Maria Rezende!). Sem levar pro lado psicanalítico da questão (apesar de toda liberdade – somos filhos da geração 'amor livre' – e com uma gama imensa de possibilidades, nos sentimos cada vez mais miseráveis), é notório que lá no fundo estamos indo, vindo e rindo eu e você (pegando emprestado os versos da música “Muralha da China”, da banda Letuce).

 

Mas homens e mulheres não se entendem. Mulheres e mulheres tão pouco, homens com homens também estão em desalinho. Algo que era para nos socializar está nos isolando. Subterfúgios, camadas de arrogância disfarçadas de ironias, mensagens lidas e não respondidas (maldito Instagram) por puro prazer do jogo. Que jogo, cara pálida? Todos querem amar. Eu só quero amor. Seja como for o amor, seja bom, seja bom, seja bom, seja amor, cantarolou Tiê em Chá Verde. E eu concordo com ela. Concordo, aliás, com cada verso desta canção que faz parte do disco Sweet Jardim.

 

Precisamos ser mais sweet. Todo mundo quer a mesma coisa. Todo mundo quer amar e ser amado. Tocar e ser tocado. Tocado, talvez, por um milagre. A recíproca, desde sempre e mais ainda nos dias atuais, deixou de ser natural. Andar de mãos dadas é bom (exceto no calor do Rio!). Fazer planos é bom. Pegar a estrada e passar o fim de semana em Ibitipoca é paixão avassaladora. Ler o jornal juntos, no domingo de manhã, esparramados no sofá com a cara amassada é intimidade. Não tenhamos medo dela. Estar entusiasmado (palavra linda com significado ainda mais belo: 'cheio de deuses') com o outro é coisa muito séria.

 

Esses dias, me peguei curtindo e compartilhando duas imagens no Instagram: "É muito mimimi para pouco paranauê" e "Por menos 'tô com saudade' e mais 'desce que eu tô na sua porta te esperando’".

 

E aí, eu decidi por em prática essas duas 'máximas pós-modernas'. Já que amar é verbo transitivo direto, eu não quero mais indiretas no caminho. Abro mão das regalias e baixo a guarda.

Tudo a ver com

Vinícius de Moraes no Submarino